A maior chuva registrada este ano no Recife provocou, ontem, uma tragédia. Um menino de 10 anos morreu soterrado no Ibura, Zona Sul. Na residência atingida por uma barreira estavam a mãe da vítima e quatro irmãos menores, que sofreram ferimentos leves. Além de causar o primeiro óbito na capital desde 2006, a precipitação de 116 milímetros deixou rastro de destruição.
Na Zona Norte, o Rio Morno transbordou e invadiu residências. A água arrastou móveis e eletrodomésticos e desalojou 150 pessoas. Diante dos transtornos, também notificados no trânsito, a prefeitura decretou alerta máximo, intensificando a prevenção em áreas de risco. Segundo a Defesa Civil, o temporal afetou a RMR e o interior. Ao todo, 259 famílias estão desabrigadas em outras dez cidades. Centenas ficaram isoladas no Sertão.
Meteorologia prevê mais chuva para hoje. A reportagem segue nas páginas 2 e 3Eram quase 7h. A dona de casa Edlene José de Lima, 42 anos, dormia com cinco dos seis filhos – crianças e adolescentes – em um dos dois quartos da residência de número 41 da Rua Engenheiro José Mário Leite, em Lagoa Encantada, no Ibura, Zona Sul do Recife, uma das áreas que mais sofrem no período chuvoso. Uma outra filha, de 14 anos, tinha acabado de sair com o namorado. Um estalo e, em segundos, a casa de sete cômodos, feita em alvenaria, veio abaixo.
A barreira de cinco metros atrás do imóvel não agüentou a pressão da chuva da madrugada e se projetou contra a residência. Não sobrou uma parede em pé. Entre os destroços, um dos filhos da dona de casa morto, o mais velho dos meninos: Leonardo José do Nascimento, 10 anos. O garoto dormia próximo à parede e ficou embaixo dela. Suspeita-se que teve o pescoço quebrado. Quando foi resgatado por vizinhos, estava morto.
Tudo aconteceu em segundos. A tragédia não foi maior porque os vizinhos foram rápidos. Muitos estavam acordados desde as 4h, assustados com a intensidade da chuva e calejados por viver em áreas de morro. “Ainda bati na porta da minha comadre, tentei chamá-la para que ficasse atenta ao perigo. Mesmo os quartos tendo sido construídos na parte da frente da casa, o risco existia porque atrás tinha uma barreira”, afirmou o aposentado Edvaldo Carlos de Santos, vizinho da família. O imóvel havia sido alugado por ele e a esposa para abrigar a futura nora, a mãe e os irmãos dela.
Mas Edlene José de Lima não acordou. Ao despertar, estava coberta até a cintura pelos destroços da residência. Além dela e de Leonardo José do Nascimento, a mais nova das crianças, Washington José do Nascimento, 2, ficou soterrada. O menino foi arremessado na canaleta em frente à casa e engoliu muita água, sendo encontrado pelos vizinhos por acaso. “Quando ouvi os gritos do povo corri. Comecei a tirar os tijolos e o resto dos móveis que estavam no local. Quando levantamos uma pedra, foi que vimos ele na canaleta, engolindo a água da chuva”, contou o ambulante Paulo Alves da Silva.
Washington teve um pequeno ferimento na orelha. A mãe das crianças também ficou ferida, com um corte na perna direita. Na casa ainda estavam a menina Elizângela José de Lima, 5, que recebeu uma pancada na cabeça, Leandro José do Nascimento, 8, com um braço quebrado, e a irmã mais velha, Elaine do Nascimento, 15, que nada sofreu. A estudante Edvânia do Nascimento dormiu na casa, mas saiu com o namorado momentos antes do acidente.
Os feridos foram levados à Policlínica Arnaldo Marques, no Ibura, e no fim da manhã receberam alta. Apenas o garoto de 2 anos permaneceu em observação. Ontem, enquanto consolava o irmão mais novo, Edvânia retratava o desespero da família. “Leonardo, cadê você? Eu quero meu irmão de volta. Meu Deus, por que o senhor fez isso?”, gritava, aos prantos, enquanto era consolada pelo namorado e vizinhos. Elizângela, a mais velha, não saiu de perto do corpo do irmão e em certos momentos tocava-o como se quisesse confirmar que estava morto.
IMÓVEL CONDENADO
Os moradores levaram quase uma hora para conseguir tirar toda a família dos escombros. Por último, encontraram Leonardo José do Nascimento. Quando o Corpo de Bombeiros chegou ao local, o corpo do garoto já estava ao lado dos destroços e os feridos, socorridos. Segundo vizinhos das vítimas, a tragédia era anunciada porque, há três anos, a residência em que Edlene José de Lima morava com os filhos foi condenada pela Coordenadoria de Defesa Civil do Recife (Codecir). Mas o proprietário teria reformado o imóvel e alugado novamente, sem que os inquilinos soubessem da proibição. Algumas pessoas afirmaram que a Codecir vistoriou a área há pouco tempo e não colocou lona na barreira que deslizou.
A coordenadora da Codecir, Nina Macário, confirmou que o imóvel estava condenado. Uma vistoria de rotina havia sido feita no início de março, ratificando a situação. “O proprietário já tinha deixado a casa. Soubemos que ele cedeu a habitação. Essa família estava ali não faz mais de dez dias”, disse.
O penúltimo acidente fatal causado pelas chuvas no Recife aconteceu no dia 19 de maio de 2006. A dona de casa Joyce Suzane Silva de Macedo, 21, foi soterrada por uma barreira que deslizou sobre sua residência, em Água Fria, Zona Norte.