domingo, 1 de junho de 2008

Qual o futuro da beira-mar?

O pernambucano talvez não tenha se dado conta, mas o litoral do estado está encolhendo. Uma mostra da gravidade da situação foi apontada em um estudo recente divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe).

Houve perda de 25 metros de praia no litoral, em um período de 10 anos, avaliado entre 1985 e 1995. Uma média de 2,5 metros por ano. O dado é apenas um parâmetro do preocupante prognóstico para o futuro. A pergunta inevitável é como ficariam as nossas praias urbanas com uma perda de mais 25 metros de litoral? E a resposta é que elas simplesmente deixariam de existir e o mar chegaria onde hoje é a beira-mar.

Uma das razões para essa fragilidade é que a faixa de areia não edificada é ínfima. Para se ter uma idéia, os especialistas em geologia marinha apontam uma margem de segurança entre 50 e 60 metros de faixa de areia. Em Boa Viagem, essa margem não chega a 20 metros e na orla de Jaboatão, em alguns trechos, há menos de cinco metros de areia, ou nenhuma.

Para os especialistas, o destino da beira-mar de Pernambuco depende do que for feito, a partir de agora, para preservar o que resta de praia. "Nosso litoral está se afogando", alerta o professor e pioneiro em geologia marinha no estado Paulo Coutinho. Segundo ele, o litoral Pernambucano tem características próprias que por si já o fragilizam para enfrentar o mar, entre as quais a ausência de dunas, uma plataforma estreita e a presença de muitos estuários.

Ao lado, de baixo para a cima, o mesmo trecho da praia de Boa Viagem. Em 1989, com vegetação e areia, em 1995, após obra no calçadão e, finalmente, em 2008: apenas pedras.

Além de tudo isso, há ainda a ocupação desordenada e o aumento do nível do mar, que deixam o estado numa situação limite. "O ponto positivo é que temos os recifes que nos protegem, mas eles sozinhos não resolvem tudo. Onde houve ocupação irregular, o mar avançou", explica Coutinho.

Foi em 1994 que Boa Viagem acordou assustada com uma ressaca que destruiu parte do calçadão. A área afetada, na época , com cerca de 1,5 quilômetros de extensão, já se estende a 2,5 quilômetros. O enrocamento de pedras vem conseguindo preservar a área do calçadão, mas nesse trechoa praia não existe mais.

"Na época, o departamento de geologia da UFPE fez um estudo que previa além do enrocamento em pedras, também o engordamento da praia e um quebra-mar, mas somente o enrocamento foi feito até hoje. E já se passaram 14 anos", afirma Coutinho.

Quem conhece hoje o trecho engolido pelo mar, entre a Pracinha de Boa Viagem e o Castelinho, não imagina que no final da década de 80 havia uma grande faixa de areia e até vegetação, mas uma intervenção urbanística acabou por traçar o futuro da orla. "Com o Projeto Cura houve um alargamento do calçadão de Boa Viagem, ocupando a faixa de areia. Na época, já se orientava sobre os riscos ambientais, mas não levaram a sério e a natureza respondeu", revela o geólogo e professor da UFPE Valdir Manso.

Levar em conta o que a ciência diz e a partir daí tomar providências parece simples, e é, mas na prática isso não acontece. "Não se pode brincar com o mar. Uma vez iniciada uma obra ela tem que ir até o final e é exatamente o que nunca é feito. A única exceção nesses últimos 20 anos foi Brasília Teimosa, onde a praia foi recuperada numa intervenção de sucesso", detalha Manso.

http://www.pernambuco.com/diario/2008/06/01/urbana5_0.asp

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